Cachopa fala sobre ataques a quarteto da seleção

A seleção brasileira de vôlei acumulou críticas pelos maus resultados recentes - especialmente após ficar fora da fase final da Liga das Nações pela primeira vez, em julho. As críticas nas redes sociais, entretanto, transcenderam o âmbito esportivo, atingiram a vida pessoal dos jogadores e, em alguns casos, configuraram crime de homofobia.

Adriano chora após título e desabafa "Alvos de ódio que não deveria existir."

Os alvos das críticas nas redes sociais foram o quarteto composto por Douglas Souza, Douglas Pureza, Maique e Adriano. Este último, inclusive, deu um depoimento emocionado no mês passado após o Brasil vencer a Argentina, no Pré-Olímpico, no Ginásio do Maracanãzinho, e conquistar a vaga em Los Angeles 2028.
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Cachopa repudiou os ataques homofóbicos aos colegas de equipe — Foto: Divulgação
Levantador da seleção brasileira, Fernando Cachopa não sofreu diretamente como os quatro companheiros de equipe. O gaúcho, porém, detonou os comentários que relacionaram o rendimento ruim do time à sexualidade do quarteto.
- O principal problema hoje são as redes sociais. No período que a gente não conseguiu se classificar depois da última semana, choveu críticas para todo mundo, mas foi exagerado em relação aos dois Douglas, Maique e Adriano, que sofreram de maneira injustificável. Relacionaram o baixo desempenho da equipe à sexualidade e a outros assuntos que não têm nada a ver com o esporte ou com o desempenho dentro de quadra. Essas coisas foram pesadas. Eu sou um cara que não acompanho muito, não fico olhando comentários e, para mim, afeta um pouco menos. Mas lógico que tem atletas que olham.... e chega até a gente, pessoas que mandam mensagem, você acaba vendo e é impossível não olhar as críticas, as besteiras que te falam e não ser afetado por isso.
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Aliviado pela conquista da vaga, Cachopa acredita que a antecedência de dois anos para os Jogos será importante para que o técnico Bernardinho possa realizar experiências na seleção.
- São dois anos em que poderemos dar mais rodagem aos atletas que estiveram em quadra por menos tempo, tentando ter o maior número de atletas capacitados, com bom ritmo de jogo, evolução técnica, em Los Angeles.
Cachopa comenta noivado e vida nova no vôlei turco
Cachopa, que ficou noivo em setembro da também jogadora de vôlei Sofia Monza fala ainda sobre os planos para o casamento e a nova vida na Turquia, onde defende o Fenerbahçe.
Confira a entrevista na íntegra:
Após duas semanas do título do Pré-Olímpico, como absorveu a conquista antecipada da vaga para Los Angeles 2028?
- Estou realmente contente com a maneira que finalizamos a temporada. Eu me sinto mais tranquilo em relação aos próximos dois anos muito por saber que tiramos uma certa pressão do time. Apesar de ter feito uma boa VNL no ano passado, esse ano não conseguimos repetir o resultado, gostaríamos de ter ido às finais e não fomos, o que acarretou uma série de... não digo de problemas, mas pressão interna, um pouquinho de perda de confiança. Agora me sinto mais tranquilo com relação ao que precisamos fazer para chegarmos bem nas Olimpíadas. Ano que vem tem o Mundial, um ótimo teste para vermos em que nível estamos para chegarmos bem em Los Angeles. Não gosto de dizer que é um alívio, mas estar com a vaga carimbada dá mais tranquilidade para pensar no que precisa ser feito para chegar bem em Los Angeles.
Como foi o papo do Bernardinho com o grupo depois do título?
- Foi uma loucura aquele domingo, casa cheia, ele estava em casa, tinha amigos e famílias. A gente estava muito eufórico. Uma coisa que me marcou... ele deu os parabéns, cumprimentou todo mundo e disse para curtirmos esse momento entre a gente, sem ter que ficar falando com pessoas fora do nosso meio. A gente recebeu bastante pedrada de fora esse ano. Ele falou para curtir entre a gente, as pessoas que a gente ama, os torcedores que realmente apoiam. Não tivemos condição de ter uma conversa o grupo todo após a classificação, foi um dia de festa, todo mundo comemorando muito. Foi o término de um período longo com a seleção, muita gente com mala pronta. Essa foi a coisa que mais me marcou no pós-partida.
De que forma essa tranquilidade impacta nos jogadores dentro de quadra?
- A gente tem dois anos para poder testar muita coisa, vários jogadores que esse ano jogaram menos. Testando algumas coisas no treinamento. De maneira geral, esse ano a gente evoluiu bastante no saque, uma coisa que estudávamos, víamos números, e foi um fundamento em que o time melhorou bastante. São dois anos em que poderemos dar mais rodagem aos atletas que tiveram menos tempo em quadra, tudo visando o maior número de atletas capacitados, com bom ritmo de jogo, evolução técnica, em Los Angeles.
Brasil comemora vitória diante da Argentina no Pré-Olímpico — Foto: Maurício Val/Dhavid Normando/CBV
Quais os fatores externos que os jogadores diziam que atrapalhavam a seleção?
- O principal problema hoje são as redes sociais. No período que a gente não conseguiu se classificar depois da última semana, choveu críticas para todo mundo, mas foi exagerado em relação aos dois Douglas, Maique e Adriano, que sofreram de maneira injustificável. Relacionaram o baixo desempenho da equipe à sexualidade, outros assuntos que não têm nada a ver com o esporte ou com o desempenho dentro de quadra. Essas coisas foram pesadas. Eu sou um cara que não acompanho muito, não fico olhando comentários e, para mim, afeta um pouco menos. Mas lógico que tem atletas que olham.... e chega até a gente, pessoas que mandam mensagem, você acaba vendo e é impossível não olhar as críticas, as besteiras que te falam e não ser afetado por isso. O que tentamos fazer foi fechar o grupo, absorver o que era realmente o problema e não ficar dando ouvidos a essas coisas ditas em redes sociais. Muita gente aproveitou para surfar a onda, para ganhar view, like, se promover com essa situação. Enfim, foi um período difícil, pesado para todo mundo. Eu via algumas coisas inaceitáveis publicadas em rede social. Pelo lado humano as pessoas não conseguiam ter empatia, pensar que poderiam estar afetando as pessoas. Foi doloroso.
E cometendo um crime de homofobia.
- Exato. É coisa de denúncia. Foi esse o nível a que chegamos, infelizmente, por alguns meses. Eu ia para casa na folga, por exemplo, e algum amigo de fora do vôlei mandava uma coisa que eu nem sabia. Eu falava: "Nem dá bola para isso aí".
Em meio à correria com a seleção brasileira, você ficou noivo da Sofia Monza na Itália. Como foi esse momento?
- Ajoelhei no cascalho (risos). Fui para a Itália em setembro em uma das folgas que rodamos o mundo com a seleção. Eu tinha a ideia de fazer o pedido de casamento, fomos em um lago perto de Trento, em um lugar muito bonito e não pensei duas vezes. Eu ajoelhei, mão tremendo (risos). Estamos juntos há três anos e cinco meses, ela joga em Trento. No meu primeiro ano em Monza, a gente se conheceu no final da primeira temporada. A cerimônia vamos fazer depois de Los Angeles, tem um tempinho para organizar. Quero chegar bem nas Olimpíadas e depois me dedicar ao casamento, fazer uma viagem. Depois de Los Angeles é o momento perfeito.
Você saiu da Itália e foi para a Turquia. O que motivou essa decisão?
- Eu tinha mais um ano de contrato em Milão. Em janeiro ou fevereiro apareceu uma proposta muito interessante do Fenerbahçhe para mim, não só financeiramente, mas o projeto que me apresentaram para a temporada. Eu tinha a expectativa que o clube fosse disputar a Champions League, no fim das contas vou jogar de novo a Challenge Cup, que é um bom campeonato. Eles têm grandes ambições dentro da Turquia. Foi o que me motivou a vir. Quero estar em lugar que essa seja a mentalidade, de conquistar títulos. Foi minha primeira semana em Istambul e está fazendo jus ao que me prometeram.
Quais as primeiras impressões do país?
- Eu moro na parte asiática, é muito bonita, moro perto do mar, o Fenerbahçe é na orla da praia. É uma cidade muito tumultuada, trânsito 24h por dia, muito difícil de pegar carro e dá voltas. Fui ao shopping, que fica a 4km e demorei meia hora. A pé teria chegado mais rápido (risos). O povo turco é muito bacana. É uma cultura diferente, comida muito boa. Essas primeiras impressões foram bem positivas. Vi muito pouco da parte europeia.
As torcidas turcas são fanáticas no futebol. Como é no vôlei, especialmente em um clube que tem tradição nos gramados?
- O vôlei feminino é muito mais forte que o masculino aqui. A torcida do Galatasaray e do Fenerbahçe, se os times estão indo bem, as torcidas acompanham. O primeiro esporte é o futebol, depois basquete e vôlei. Natação, judô, qualquer esporte a torcida do Fenerbahçe acompanha. É até engraçado, porque peguei um táxi outro dia, estava com a bermuda do Fenerbahçe e o cara me olhou assim e começou a rir. Não falava nada de inglês e me perguntou em turco, eu falei "sim, sim, Fenerbahçe". A filha da minha vizinha, que deve ter uns cinco anos, me viu com o uniforme e ficou me encarando como se eu fosse uma super estrela do futebol (risos). As pessoas vivem a paixão pelo clube de uma maneira que eu ainda não tinha visto. Eu joguei muto tempo no Sada Cruzeiro, é assim. Mas aqui é um nível acima desse fanatismo pelo clube.
O que achou de sua estreia pelo Fener no último fim de semana?
- Fizemos dois amistosos. A estrutura do time é muito boa, talvez a melhor que eu tenha encontrado nos últimos anos. O time está enfrentando problemas com lesões, ainda não achamos nosso melhor nível em quadra, os melhores para jogar, mas tenho boa expectativa para essa temporada. Formamos um grupo com bons atletas, o ambiente é bem bacana. Estou animado.

