O Espaço do Cidadão é um livro do geógrafo brasileiro Milton Santos publicado originalmente em 1987 pela Editora Nobel. O livro foi reeditado pela Studio Nobel (de 1992 a 2002) e desde 2007 é reeditado pela Editora da Universidade de São Paulo. O livro, apesar de ter sido lançado um ano antes da promulgação da Constituição brasileira de 1988, considerada a Constituição cidadã, demorou 10 anos para ser escrito e por isso muitas vezes cita cenários pessimistas onde a cidadania foi suprimida da forma mais radical, especialmente em países do Terceiro Mundo.
Resumo A sinopse do livro apresenta a seguinte mensagem:A atividade econômica e a herança social distribuem os homens desigualmente no espaço fazendo com que noções como rede urbana ou sistema de cidades não tenham validade para a maioria das pessoas. O acesso efetivo delas aos bens e serviços depende de seu lugar socioeconômico e também do lugar geográfico, tema que Milton Santos explorou anteriormente em O Espaço Dividido. Aprofundando a discussão, o autor se propõe aqui a tratar a questão da cidadania pelo ângulo geográfico, mostrando como a mobilidade ou o imobilismo tornam-se assim categorias de análise. Com a pretensão de contribuir para o debate da redemocratização brasileira, as análises são feitas a partir da realidade do país, mas tentam abarcar também a de outros países subdesenvolvidos.
Estrutura O livro O Espaço do Cidadão contém Prefácio, Introdução, seguidos de 13 capítulos de desenvolvimento e, por fim, conclusões e referências. Dentre os capítulos teóricos destacam-se:
"Há cidadãos neste país?", o primeiro capítulo teórico do livro no qual Milton Santo fala sobre cidadania, direitos e as formas para garanti-los, incluída a luta simbolizada no "direito de reclamar e ser ouvido". "O cidadão mutilado", segundo capítulo onde são apresentadas as diferentes formas de vida não cidadãs. "O espaço sem cidadãos”, quarto capítulo que enfoca questões como: o direito de morar, e sua distinção com o direito de ser proprietário; os pobres e a cidade corporativa; o direito ao entorno, exemplificado na forma de um ambiente saudável e ar puro, entre outros. O capítulo evidencia a relação entre a condição de vida dos mais pobres da cidade e o poder político.
Importância e legado Além das diversas reedições da obra, primeiramente pela editora Nobel e depois pela editora da USP, o livro foi inserido dentro de uma compilação organizada por Elisiane da Silva, Gervásio Neves e Liana Martins e publicada pela Fundação Ulysses Guimarães.
Na Introdução do livro, Milton Santos menciona que a cultura e o território são os dois componentes essenciais sobre o qual o modelo cívico se forma: O modelo cívico forma-se, entre outros, de dois componentes essenciais: a cultura e o território. O componente cívico supõe a definição prévia de uma civilização, isto é a civilização que se quer, o modo de vida que se deseja para todos, uma visão comum do mundo e da sociedade, do indivíduo enquanto ser social e das suas regras de convivência. Para ficarmos apenas com um exemplo, a atribuição do chamado salário-mínimo, isto é, da quantidade mínima de dinheiro capaz de assegurar uma vida decente para cada qual e sua família, não pode ser estabelecida em função dos simples mandamentos da “economia”, mas da cultura. Quando aceitamos que sejam pagos salários de fome a uma boa parte da população, é certo que estamos longe de possuir uma verdadeira cultura. O componente territorial supõe, de um lado, uma instrumentação do território capaz de atribuir a todos os habitantes aqueles bens e serviços indispensáveis, não importa onde esteja a pessoa; e de outro lado, uma adequada gestão do território, pela qual a distribuição geral dos bens e serviços públicos seja assegurada."
Impacto teórico A obra é frequentemente citada em estudos acadêmicos e em abril de 2024 totalizava 4507 citações no Google Scholar. É considerada uma obra clássica que oportuniza uma reflexão profunda sobre o que é ser cidadão, justamente na estrutural crise da democracia representativa no mundo, inclusive no Brasil.
De acordo com Claudia Holanda:O "Espaço do Cidadão " é um livro crítico e lamentoso, de quem vê com desassossego as potencialidades recalcadas do Brasil e o mal-estar de sermos ainda um país-promessa.
Ver também Por uma Geografia Nova – livro de Milton Santos de 1978 O Espaço Dividido - livro de Milton Santos de 1975 Circuito (economia urbana) Desigualdade econômica Geografia crítica
Bibliografia Santos, Milton (2007), O espaço do cidadão, ISBN 978-85-314-0971-4 7a ed. , São Paulo: Edusp , 176 pp. Santos, Milton (2011), «Introdução», in: SILVA, Elisiane; NEVES, Gervásio; MARTINS, Liana, Milton Santos: O espaço da cidadania e outras reflexões, ISBN 978-85-64206-06-9 2a ed. , Porto Alegre: Fundação Ulysses Guimarães , 226 pp.
Referências
Ligações externas
OLIVEIRA MARTINS, Sérgio Ricardo. Desenvolvimento Local: questões conceituais e metodológicas. Interações , Campo Grande, v. 3, n. 5, 2016. Disponível em: https://interacoesucdb.emnuvens.com.br/interacoes/article/view/570. Acesso em: 23 abr. 2026. NASCIMENTO, L. A. DO .; LEÃO, A.. Estigma social e estigma internalizado: a voz das pessoas com transtorno mental e os enfrentamentos necessários. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 26, n. 1, p. 103–121, jan. 2019. https://doi.org/10.1590/S0104-59702019000100007