Matheus Leitão

Por que Lula venceu debate por 2 a 1 e pode ter conquistado indecisos
Por que Lula venceu debate por 2 a 1 e pode ter conquistado indecisos · Imagem: Renato Pizzutto/Band

Presidente começou nervoso, reagiu, arrancou meia-culpa na saúde e desafiou Flávio a abrir sigilo após ouvir acusação de corrupção na Band

Por que Lula venceu debate por 2 a 1 e pode ter conquistado indecisos
Por que Lula venceu debate por 2 a 1 e pode ter conquistado indecisos · Imagem: Source: www.metropoles.com

Matheus Leitão

19/10/2026 01:37

Renato Pizzutto/Band

Lula começou o primeiro debate contra Flávio Bolsonaro, neste domingo (18/10), na Band, como quem precisava encontrar o próprio lugar no palco. Não deu boa noite, olhou para a câmera errada e se atrapalhou com o tempo. O adversário entrou mais organizado, cumprimentou os presentes e dirigiu uma saudação até ao presidente. Foi um gesto de civilidade que chamou a atenção numa família política tão acostumada à truculência. 1 a 0 para o senador.

A primeira impressão favoreceu Flávio. Mas debate não termina na apresentação. Ao longo do confronto, Lula recuperou a firmeza, administrou melhor o relógio, encontrou espaço para apresentar medidas do governo e produziu as respostas mais fortes da noite. Na avaliação desta coluna, venceu por 2 a 1, de virada.

O placar é uma avaliação do desempenho, evidentemente. O efeito eleitoral ainda precisa ser medido. Mas Lula pode ter conquistado parte dos indecisos e dos poucos eleitores que ainda admitem mudar de voto. Era esse o público que os dois precisavam alcançar. Falar apenas para quem já escolheu seu candidato, a uma semana da votação, é desperdiçar uma oportunidade.

Não foi uma vitória sem erros. Lula deu respostas insuficientes, entrou em provocações e poderia ter sido mais preciso em segurança pública. Ainda assim, terminou em condição bastante diferente daquela em que começou. Conversas que tive com integrantes das duas campanhas também reforçaram minha percepção de que o presidente cresceu durante o encontro.

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Saúde: o reconhecimento que Flávio não queria fazer

Os dois candidatos escolheram assuntos que estão no centro das preocupações dos brasileiros. Flávio apostou na segurança pública. Lula insistiu na saúde. Segundo o Datafolha, a violência é o principal problema do país para 20% dos entrevistados; a saúde aparece em seguida, com 18%.

Flávio procurou explorar uma dificuldade dos governos petistas: oferecer uma resposta convincente à população que vive cercada pelo medo. A preocupação é concreta. Há brasileiros que organizam a própria rotina em função da violência, do domínio de facções e do risco de sair de casa. Lula precisava responder a isso.

Na saúde, porém, o presidente conseguiu levar o adversário a uma admissão importante sobre o governo de Jair Bolsonaro. “Em primeiro lugar, eu quero falar para quem tá me assistindo aqui, que de fato a saúde não foi uma área que a gente teve o melhor resultado durante o governo do presidente Bolsonaro. Eu faço aqui esse meia-culpa”, admitiu Flávio. 1 a 1 com gol de Lula.

O senador tentou explicar o desempenho pela pandemia, pelos dois anos de emergência e pelo desconhecimento inicial sobre como enfrentar a doença. Mas o reconhecimento estava feito. O candidato que procura herdar o patrimônio político do pai admitiu uma falha justamente na área em que o governo Bolsonaro deixou sua marca mais trágica.

Lula lembrou os cerca de 700 mil mortos pela Covid. Uma pergunta mais específica poderia ter dificultado ainda mais a saída de Flávio para generalidades sobre a saúde. Mesmo assim, o presidente conseguiu algo relevante: fazer o próprio filho de Bolsonaro pronunciar o meia-culpa. Foi um dos momentos mais importantes do debate.

A resposta sobre Bolsonaro que vai circular nas redes

A experiência de Lula apareceu também na velocidade das respostas. Quando Flávio o questionou sobre por que havia recebido a maioria dos votos dos presos, Lula respondeu que queria o voto de todos. “Eu quero que vote 100%, até teu pai.” Depois, dirigiu a provocação ao próprio ex-presidente: “Bolsonaro, vote em mim, Bolsonaro”. E acrescentou que ele conhecia o filho.

É uma resposta que reúne o que as campanhas procuram para as redes sociais: rapidez, compreensão imediata e um adversário obrigado a reagir. Lula devolveu a provocação usando a situação do pai de Flávio, sem precisar de uma explicação longa.

Esses momentos ajudam a entender por que considero que o presidente virou o jogo. O debate continua depois que a transmissão acaba. Segue nos celulares, nos grupos de mensagens e nos cortes que serão repetidos nos próximos dias. Essa resposta tem força para chegar até a eleição.

Lula também procurou atingir a distância entre a trajetória do adversário e a vida de quem trabalha e usa transporte público. Disse que Flávio conhecia ônibus “por literatura” e questionou sua experiência de trabalho. Em outra provocação, perguntou se o senador havia pegado a motosserra de Javier Milei.

O presidente produziu mais frases capazes de sobreviver àquela noite. Mas sua vantagem não se resumiu às provocações.

O relógio e a experiência de Lula

Nos blocos em que cada candidato administrava o próprio tempo, mas falavam ao mesmo tempo, Lula conseguiu preservar cerca de um minuto final para falar depois do adversário, que já havia consumido o seu. Usou esse espaço para apresentar ações do governo e detalhar medidas de alívio das dívidas dos microempreendedores individuais.

Foi um exemplo concreto de experiência em debate. Enquanto boa parte do encontro se perdia em acusações, Lula encontrou uma oportunidade para falar de governo, de renda e de endividamento.

Flávio, por sua vez, apresentou uma explicação econômica superficial ao prometer uma economia de R$ 200 bilhões e dizer que iria tirar de Lula para dar ao eleitor. Faltou explicar de forma suficiente como chegaria àquela cifra e como a promessa funcionaria.

Ao falar dos endividados, Flávio apresentou como novidade uma medida que Lula já colocou em prática: a compra de dívidas pelo governo. Em vez de oferecer uma alternativa, reciclou uma iniciativa do presidente que tentava criticar.

A escala 6×1 foi outro exemplo das dificuldades de Flávio diante das perguntas. Lula levou o assunto ao debate, mas o senador inicialmente evitou enfrentá-lo. Mais tarde, no que pareceu uma orientação de sua campanha em um dos intervalos, Flávio retomou o tema para dizer que havia votado pelo fim da escala 6×1.

Em vários momentos, Flávio repetiu o método que já havia usado na sabatina do Jornal Nacional: recebia uma pergunta e conduzia a fala para o assunto que havia preparado. Isso pode funcionar com a própria torcida. Para quem quer uma resposta, a fuga fica mais evidente a cada repetição.

Corrupção: Lula respondeu e devolveu o desafio

Logo no primeiro bloco, Lula perguntou se Flávio tinha algo contra as mulheres. O senador respondeu que era casado e tinha duas filhas, antes de levar a discussão para Roberta Luchsinger, próxima de Lulinha e investigada no caso do INSS.

O confronto se tornou confuso em diversos momentos. Animou os apoiadores, mas pouco ajudou quem queria comparar propostas. Flávio ainda aproveitou um minuto concedido como direito de resposta, cuja justificativa não ficou clara para mim durante a transmissão.

Nesse assunto, porém, discordo da avaliação de analistas de que Lula simplesmente escapou. O presidente afirmou que o caso cabia à Polícia Federal, disse acreditar na inocência do filho e sustentou que, se houvesse responsabilidade, ele teria de responder.

Lula permaneceu no tema até quando poderia ter tentado voltar à pergunta original, sobre as mulheres. Repetiu que as investigações deveriam seguir. Politicamente, procurou marcar uma diferença em relação ao governo Bolsonaro e às tentativas do ex-presidente de interferir na Polícia Federal.

O ponto exato da virada veio neste momento. Depois de ouvir sucessivas acusações de corrupção contra si, o governo e a família, Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico. Disse que faria o mesmo, incluindo os familiares, e propôs entregar a documentação à Justiça para uma avaliação antes da eleição.

Flávio não aceitou o desafio naquele momento. O contraste entre a insistência nas acusações e a ausência de uma resposta à proposta favoreceu Lula.

O presidente também retomou a compra da casa de cerca de R$ 10 milhões pelo senador. Comparou o imóvel ao seu apartamento, que disse valer R$ 1,5 milhão, e questionou como os dois, tendo recebido salários semelhantes, haviam chegado a patrimônios imobiliários tão diferentes.

O desafio não prova, por si só, a regularidade ou a irregularidade das contas de ninguém. Mas, no debate, foi uma resposta forte a quem havia feito da corrupção um dos principais instrumentos de ataque. Se Flávio considera que não há nada a esconder, pode mudar de ideia e aceitar a proposta. A cobrança tende a acompanhá-lo nas redes sociais nos próximos dias, até a eleição do segundo turno.

Onde Lula errou

A vitória de Lula não apaga suas falhas. Na discussão sobre as saidinhas, deveria ter explicado melhor que se tratava de uma previsão da Lei de Execução Penal, e não de um benefício criado por seu governo. Deixou uma resposta importante pelo caminho.

Acertou ao defender que o sistema prisional precisa recuperar quem cumpre pena. Mas precisava ter combinado essa posição com uma explicação mais clara sobre a legislação e as responsabilidades de cada poder.

Também tenho dúvidas sobre o efeito negativo de associar Flávio à figura do carioca malandro. Sou carioca e não sei se essa referência funciona como comemorava a campanha de Flávio, que pretendia usá-la nos próximos dias.

Flávio estava tão enviesado em trazer dados que não são verdadeiros que insistiu numa conta errada ao atribuir ao PT 20 anos de governo. Até este debate, foram aproximadamente 17 anos e quatro meses de exercício da Presidência, considerando o afastamento de Dilma Rousseff em maio de 2016. Michel Temer governou por cerca de dois anos e sete meses. A repetição dos “20 anos” apagava esse intervalo.

Moro e Dallagnol na plateia

A presença de Sergio Moro e Deltan Dallagnol também merece atenção. Se a intenção era constranger Lula, a imagem permitia outra leitura: dois protagonistas da Lava Jato estavam ali como aliados políticos de seu adversário.

Para esta coluna, a cena reforça a avaliação sobre o viés político da atuação dos dois. Uma investigação importante para o país exigia rigor técnico e respeito às regras.

Ver seus antigos responsáveis incorporados à disputa partidária, hoje políticos com mandato, torna inevitável revisitar a forma como exerceram aquelas funções. Para esta coluna, a atuação não foi técnica: ali não havia um procurador e um juiz. Havia dois políticos perseguindo um ex-presidente da República.

No palco, Lula precisou enfrentar o adversário, suas próprias falhas e um começo ruim. Conseguiu. Saiu do nervosismo para o ataque, fez Flávio reconhecer problemas na saúde do governo do pai e devolveu as acusações de corrupção com um desafio concreto.

A eleição continua aberta. Ainda será preciso medir se o desempenho alterou votos. Mas Lula terminou o debate oferecendo a quem ainda hesita mais razões para escolhê-lo do que havia conseguido apresentar no início. Foi por isso que, ao comentar o encontro ao vivo, dei o placar: 2 a 1, de virada.